“A alma humana é tão sutil e complicada que traz confusão à vista nas suas operações exteriores.” – Machado de Assis
“Freqüentemente tenho longas conversas comigo mesmo, e sou tão inteligente que algumas vezes não entendo uma palavra do que estou dizendo.” – Oscar Wilde
Acho que estava devendo essa discussão a mim mesmo, mas é bom que visitantes saibam disso também.
Na verdade, esse blog surgiu do encontro de vários fatores diferentes que ocorreram no meu último ano de colegial, sendo que alguns foram inconscientes e/ou imperceptíveis, fazendo com que só tomasse conta deles agora.
Tudo começou em fevereiro, quando as aulas tiveram inícios. Dentre os professores se encontrava um dos meus grandes motivadores a expressar essa prolixidade que já há muito que se remexia em meu interior, mas sem nunca tomar forma. Seu nome era Cláudio Aguiar, um doutor em história – escreveu um livro nos meados da década de 1980 sobre a figura do malandro no Rio de Janeiro dos anos 1930 – e um ótimo orador. Suas aulas eram permeadas por uma lógica inabalável, um discurso conciso, coerente e uma retórica “dantesca”. Eu mesmo fui muitas vezes incapacitado de seguir esse raciocínio complexo e acabei por perder a consciência durante alguns breves 45 minutos.
Ele começou o ano nos introduzindo aos fatos ocorridos antes, durante e depois da Primeira Guerra Mundial, passando pela Revolução Russa. Tudo isso foi ajudado por diversas sessões de análise de material audiovisual, tais como O Encouraçado Potenkim e Glória Feita de Sangue. Todas as sessões eram pausadas e comentadas pelo doutor, que não deixava um pequeno detalhe escapar à nossa compreensão. Os textos que ele nos passava eram, por sua vez, demasiados longos, retirados de livros especializados sobre determinados momentos históricos. Tudo para a melhor aprendizagem.
Enquanto isso, durante as aulas de geografia, recebíamos textos curtos, porém de uma complexidade tão grande, que era difícil chegar ao final de uma pergunta e conseguir se lembrar o que deu a início a ela (se foi “qual”, “quando”, “quem” ou “o que”), dado a extensão da mesma. Me encantei por tais construções gramaticais; era como se nunca tivesse antes lido alguma que merecesse ser lido. Porém, ao mesmo tempo que esse desejo de ser prolixo crescia em mim, surgia também um ódio para com esses mesmos textos. Freud explica: sua leitura me irritava, e queria mostrar que este artifício era apenas uma ferramenta de esconder por debvaixo de muitos véus o fato de que o escritor nada sabia ou tentava discursar sobre um assunto do qual ele não possuía o mínimo conhecimento.
Pois bem, comecei a exercitar esse meu lado prolixo de forma tímido em trabalhos escolares, principalmente os de geografia, quando surgia algum Milton Santos ou algo que o valha (quem leu sabe do que estou falando). Ele é muito bom, com um raciocínio lógico impecável, mas rebusca demais suas passagens.
Conversa vai, conversa vem, chegou a tão esperada semana de provas. Alguns assuntos não conseguiram ser de todo revisados, especialmente as propagandas maniqueístas que eram divulgadas pela Europa para incitar a população a se alistar contra o inimigo, que era sempre retratado como um demônio ou um bárbaro (mas não passavam todos de farinha do mesmo saco – esse ponto é muito bem explorado na cena final de Glória feita de sangue). Eis que, estando um pouco nervoso, encontrei mas instruções da prova, logo abaixo do item que falava sobre a utilização de canetas azuis ou pretas, a palavra de minha salvação, aquela que daria finalmente uma forma a tudo isso que eu gostaria de treinar para poder destruir, a Prolixidade.
Foi algo mais do que natural quando minha caneta tocou as linhas destinadas a`resposta da terceira pergunta e de lá elas foram ocupadas por frases e mais frases que tentavem ocultar o fato de que nada saíria de útil de minha parte sobre aquele assunto naquele momento. Foi mágico; um momento inesquecível.
Saí de lá sabendo o que era necessário fazer (além de estudar mais). O mesmo se repetiu na prova de geografia, mas desta vez foi algo inconsciente, pois sabia todo o assunto da prova, mas tomei gosto naquele tipo de escrita. Acabei utilizando por volta de 20 linhas extras nas questões. Foi lindo.
Daí pra frente foi uma relação de protocooperação beirando a simbiose. Eu e a prolixidade estávamos nos tornando um, e, ao mesmo tempo, nos afastando por causa de meus objetivos. Escrevia longuíssimos textos e trabalhos, buscando tornar cada frase o mais bonita e longa possível, mas sem nunca desviar do assunto, que era sempre mantido claro.
O tempo foi passando. As aulas de Cláudio eram sempre muito bem aproveitadas, mesmo ele sendo contra o meu exercício prolixo semanal. Comecei a notar que o ano se findava já, e, como não tinha planos de adentrar em uma universidade tão cedo nem me matricular em nenhum cursinho, ficaria muito tempo sem treinar minha prolixidade.
Inconscientemente buscava meios de achar um substituto para as redações e provas, que teriam um fim abrupto no final de novembro. Eis que fiquei sabendo que meu colega Pit possuía um blog nesses domínios wordpressianos, assim como o coordenador do colégio. Em uma conversa com o primeiro (após já ter visitado sua página), descobri que esse poderia ser um meio de expressar e treinar essa prolixidade latente que se remexia num rebuliço interminável dentro de meu ser.
Um blog, era disso que eu precisava. Superei o receio de expor minhas idéias a um público desconhecido e criei esta página, que dentro de alguns dias completará um ano. A página foi criada e, timidamente, post sucedeu post, sendo que o que mais me orgulho ainda é este. Ainda não entendi o por que, mas ele é o mais visitado na frente de todos os outros. Gosto de pensar que é pelo que eu escrevi, mas acho que é mesmo por causa da imagem de cabeçalho.
Eis que aqui está, essa minha página, na qual gosto de treinar minha prolixidade e ainda tentar escrever outras coisas que julgo úteis a outros.
Não se enganem os leigos: exalto a prolixidade como uma forma de arte pessoal de cada um, mas quero-a longe de textos científicos e/ou sérios! É legal ser prolixo como brincadeira, como sátira, não seriamente.
Essa citação de Oscar Wilde aí em cima revela em parte a essência desse blog. Um espaço público de longas conversas comigo mesmo e, às vezes, outros.