Esbaforido e irritado, eu sentava o pé no acelerador do meu Monza 1.6 pela Avenida Paulista, atingindo a impressionante marca de 70 km/h graças à minha impaciência de fazer uma revisão anual adequada. Ia direto para a casa do meu grande e estimado amigo Marquinhos entregar-lhe um murro na cara por ser o motivo de minha demissão e possível ruína. Ao quase derrubar sua porta, acabei dando de cara com sua mulher, Marilda, que fugia apressada tropeçando em seus saltos com algumas mudas de roupa dentro de sua bolsa dourada da Luis Vitão. Ela me pediu para dar uma boa surra em seu marido por ela, e entrou em seu Uno com a agilidade de uma gazela para nunca mais ser vista. Entrando na casa após relembrar o motivo de estar lá, fui com passos pesados até seu quarto, e, sem rodeios ou discursos, acabei desferindo meu golpe bem na bochecha rechonchuda de (qual não foi a minha surpresa) Ramsés II.
Tudo começou cerca de oito ou nove meses atrás, talvez sete. Meu trabalho como um dos editores da revista Enigmas e Advinhações, de circulação mensal e nacional aprofundava as entradas no meu couro cabeludo e fazia meu colesterol subir a níveis alarmantes, mas, enquanto eu fosse bem pago, isso era apenas um detalhe. Um certo dia, enquanto bebia um café pingado, recebi a proposta de organizar a edição comemorativa de 5 anos da revista. Fui escalado para essa tarefa, pois os diretores tomaram meu suplício por ar enquanto o café entrava em minhas vias respiratórias como um alegre ‘sim’.
Apesar do stress e do quase-infarto que esse trabalho adicional me trouxe, a equipe conseguiu quase fechar a edição semanas antes do prazo. Tudo corria bem, e, além de uma ou duas entrevistas a serem feitas por nossos repórteres, só me faltava conseguir ilustrações para uma matéria sobre reencarnação e relatos de pessoas que descobriram suas vidas passadas através de métodos de tranmissão espiritual, elevação de frequências mentais, mergulhos de almas com a ajuda de cristais e outras charlatonices exageradas. Depois de rejeitar diversos ilustradores, entrei levemente em desespero e resolvi apelar para meu amigo de longa data: o Marquinhos.
“O Marquinhos é um rapaz bem apessoado que conheci anos atrás num Fla-Flu no Maracanã, o bar azuleijado do Português ali na São João. Arrancamos alguns dentes um do outro à primeira vista, mas ficamos bem amigos na viatura a caminho da delegacia. Depois disso, fomos juntos nas Diretas Já, assistimos comíssios do PT com nossos filhos e conversávamos sobre tudo e mais um pouco. Hoje em dia, ele é um artista plástico frustrado, do tipo que só usa blusas de cashmere pretas, óculos de aro grosso e ostenta um cavanhaque grisalho, deixando sempre em dúvida para qual time joga. Ele já me devia um favor, pois fui seu analista extra-oficial durante anos, ouvindo tudo o que ele tinha a dizer, especialmente sua obsessão pelo possível significado de seus sonhos, por isso fui atrás dele para cobrá-lo.
Fui recebido em sua casa com o mesmo ardor de sempre, e ao primeiro passo que dei, meu nariz começou a produzir litros de secreção por causa da poeira não espanada, como de costume. Seu aperto de mão quase quebrou algumas de minhas falanges distais, o que disfarcei com uma leve cãibra. Marilda veio me receber aos beijos com seu corpo curvilíneo se movendo com peso por trás do avental de cozinheira.
- Espero que não tenha almoçado, Jorginho, estou fazendo o meu famoso pacu à belle meunière! – Ela disse com um sorriso aconchegante em seu rosto, ao qual eu aceitei. Marquinhos foi com ela até a cozinha, ajudar nos preparos do delicioso prato, e eu me juntei a eles, dando apoio moral.
- Então, o que os bons ventos trazem? – Marquinhos me perguntou depois do almoço, quando já estávamos em seu ateliê, onde não pude deixar de notar uma Mona Lisa numa versão muito mais reveladora que a Vênus de Milo. Dei uma pequena flauteada antes de introduzir o assunto, pois não gosto de cobrar ninguém, mesmo quando me devem quantias que deixariam Bill Gates no chinelo.
- Tudo o que eu peço é que você seja o responsável pela arte dessa matéria. Já fui atrás de vários novos nomes da ilustração editorial, mas nenhum deles mostrou toda a força que você tem. – Continuei paparicando-o até que resolveu aceitar, mediante leitura prévia do artigo. Como não podia fazer isso, contei com detalhes tudo o que me lembrava da leitura apressada que tive durante um dos momentos mais calmos de stress no trabalho.
- Raveno Molero?! – Foi a reação dele ao ouvir o nome do charlatão nº1 entrevistado na matéria. – Jorginho, você não vai acreditar, mas eu venho me consultando com esse cara já faz uns três meses! O cara é um gênio! Ele tem me ajudado muito a compreender a natureza transcedental desses meus sonhos com umas sessões com espíritos, bolas de cristal ,máquinas de fumaça e lasers. – Fiz uma careta quando ele falou que estava se “consultando” com esse traste. – Quando ele me disse que estava participando de uma matéria em uma revista, achei que fosse uma dessas que aceitam qualquer coisa, não a sua! – Não tomei esse comentário como ofensa.
- Ah é? Você está compreendendo essa “natureza transcedental” dos seus sonhos? Você pode elaborar um pouco mais isso?
- Cara, é uma grande viagem astral que me mostrou a complexidade das outras dimensões que permeiam a nossa realidade e intercruzam nosso plano em diferentes frequências, ligando o passado com o presente e definindo o futuro, somente acessíveis aos que liberam sua mente e enxergam através do terceiro olho que já foram o que não são e que são o que não foram, sem deixar de lado o fato de que o espírito pula de tempos em tempos, sofrendo pequenas mudanças, assumindo carcaças corpóreas para cumprir diferentes missões de cunho local ou interplanetário, entende?
Não, eu não entendi. Mas fingi que sim, movendo a cabeça verticalmente a cada duas ou três palavras, mantendo meus olhos em um constante estado de catatônia, e a mão sobre a boca para afastar a tensão sofrida por esse discurso. Resolvi tirar essa história a limpo, perguntando o que tudo isso significava, ao que ele me respondeu sucintamente: “Eu vejo minhas reencarnações.” Antes de receber outra dessas explicações quilométricas, fingi que estava com pressa e marcamos o prazo para dali a dois dias, o que me deixaria com uma folga de uma semana para fechar a edição.
Na mesma noite, recebi uma ligação sua. Ele estava completamente exaltado e um pouco preocupado, dizendo-me que não era à toa que conseguia discutir toda a filosofia de Kant enquanto tomava sopa de ervilhas: ele fora Kant. Era tarde da noite e eu não quis discutir, mas ele insistia que o tal Molero estava mudando sua vida. No prõximo dia, ele me ligou no trabalho, contando sobre a nova consulta que tivera com o charlatão. Desta vez, descobriu que já fora um domador de tigres indiano, e que uma de suas encarnações fora um naturalista vitoriano etc. Quando cobrei-lhe as ilustrações, ele me deu notícias animadoras:
- Está tudo indo muito bem. É como mágica, Mauro! Tudo flui, e devo terminar até amanhã de manhã! Meu Deus, quantas idéias! Tudo bem se eu usar o tema para uma nova série de quadros?
No dia do prazo que estipulamos, passei na sua casa depois do trabalho. Marilda me recebeu sensualmente como sempre, e disse que estava muito sozinha ultimamente, já que o Marquinhos não saía do ateliê. Animado corri até lá, onde o encontrei envolto por telas brancas, e nenhum sinal das ilustrações. Ele tinha um ar taciturno, e estava um pouco inconfortável com a minha presença.
- Ah, aquilo? Eu joguei tudo fora. – Ele me respondeu sobre o favor que me devia. – Tive um sonho estranhíssimo essa noite, cara, muito sombrio. Logo pela manhã fui visitar o Raveno, e ele me disse que estava tudo muito turvo para ele conseguir ver, e me mandou para o Pai Jacundissá, seu superior. Cara, você não acredita! – Ele começou a ficar mais animado, apesar de meu rosto já estar mais vermelho que um bom vinho tinto. – Eu sou Spartacus! Quer dizer, fui.
Não descrevo aqui o bafafá que tomou conta daquele lugar, mas saí de lá com um novo prazo para depois de amanhã. Mal consegui baixar as veias que pareciam querer sair da minha testa, Marilda me ligou com sua voz lustrosa, dizendo que seu marido estava passando por uma de suas crises criativas no momento. Todo e qualquer esboço parava no lixo, e ele já estava aos berros, clamando aos céus por inspiração. Ela me ligou novamente de madrugada, dizendo que a coisa estava parecendo ficar séria, e agora ele andava para lá e para cá com um martelo de carnes dizendo que era Thor, o deus dos trovões. Relutante, dirigi até lá para encontrar o local mais calmo do que o esperado. Ela atendeu a porta com seu babydoll rosa, dizendo que estava tudo sob controle, e que seu marido já voltara a trabalhar. Não pude vê-lo para não atrapalhar o fluxo de idéias, mas dormi um pouco mais tranquilo.
Findado o prazo, fui colher os espólios de sua inspiração, mas encontrei-o nadando em meio a pilhas e pilhas de arte vanguardista, dizendo que deveria quebrar com a forma. Pousando os olhos em mim, ele voltou a si e tentou se desculpar:
- Olha, Maurinho, está sendo muito difícil. Toda a noite eu tenho mais sonhos, e toda manhã eu vou ver o Pai Jacundissá. Eu descubro cada coisa impressionante, que está difícil aceitar que eu sou essa pessoa tão insignificante. Mas eu estou usando isso pra tentar criar suas ilustrações, mas são tantas inspirações diferentes, que nada parece bom o suficiente. - A lucidez durou pouco tempo, pois começou a discursar sobre um tal de Tristan Tzara.
Saí de lá quando ele começou a me pedir dinheiro para comprar mais material, e resolvi conseguir minhas ilustrações usando o único oráculo em quem confio: o Google. Em quinze minutos, encontrei tudo o que precisava, e no próximo dia fechamos a edição especial. As revistas foram para as bancas e venderam como saci em pote, ou seja, melhor do que o esperado.
Deixei de falar com o Marquinhos, esperando que ele viesse se desculpar comigo, mas não deu em nada. Minha mente, como sempre, não parava de pensar em como Marilda devia estar tendo que aguentá-lo com aquela conversa fiada de vidas passadas, até que recebi uma ligação. Era o meu chefe, que calmamente me informou que as imagens infringiam direitos autorais do maior magnata do mundo das artes, que, coincidentemente, era um assinante, e que estava agora processando a editora, a qual ameaçava falir, e eu deveria ir na segunda feira pegar a minha carta de demissão. Essa notícia causou mais danos à minha pressão do que a bomba de Hiroshima, me deixando à beira de um colapso nervoso.
No fatídico dia, toda a sombra de calma tinha sido completamente varrida do rosto rugoso do meu chefe. Entrei como um cão acuado em seu escritório, enquanto ele me olhava sério e imóvel. Tentei convencê-lo a mudar de idéia, mas fui retirado de lá aos tapas e gritos, sob a ameaça de nunca mais conseguir um trabalho nessa cidade. Marchei bufando como um touro para os elevadores, onde A Garota de Ipanema não conseguiu me acalmar a tempo de pegar meu Monza 1.6. E o resto vocês já sabem.