"Le secret pour être ennuyeux, c'est de tout dire" – Voltaire.

Apenas um deslize

A 17 de dezembro de 1916, na batalha de Verdun,  o general de brigada Renaud Ventouse  padecia de um tiro que lhe atravessava todo o comprimento da caixa craniana, entrando por um lado e saindo pelo outro. Ironia da vida, no seguinte dia a peleja encontraria seu fim, e seu corpo seria deixado à própria sorte após a retirada dos combatentes. A sua foi a última baixa registrada.

No dia 20 de março de 1916, porém, o mesmo general de brigada Renaud Ventouse estranhamente acordou de sobresalto para encontrar-se na mesma trincheira de 3 dias atrás -esta agora uma planície mórbida e deserta-, com seu corpo a ser devorado por insetos, larvas e outros necrófagos. Como seria de se esperar de qualquer um que se visse como prato principal de um banquete nefasto, o susto e o pavor fizeram-no levantar-se e correr agitando o corpo para se livrar dos diminutos comensais, feito que demorou lá seus 5 minutos para atingir total sucesso.

Enquanto batalhava contra a horda de necrófagos que pululavam sobre si, o general de brigada podia jurar ouvir gritos ao longe, mas quando se está tendo o corpo devorado, a última preocupação que se passa pela cabeça de uma pessoa sã são gritos além dos próprios. Ao sair vitorioso dessa batalha, sua atenção foi finalmente voltada às vocalizações de outrém, que agora soavam como uma sucessão de “Ei”s, “Você mesmo”s e “O que pensa que está fazendo”s, mas ao redor, nenhuma silhueta de formato humanóide apresentava-se ao alcance da vista. Intrigado, o general de brigada apurou ainda mais a audição para perceber que esses gritos vinham da direção de seus pés, mais especificamente, dos pequeninos comensais que tiveram sua ceia interrompida de tão bruta forma.

“O que diabos pensa que está fazendo, seu pedaço inútil de carne?”, bradou um escaravelho num tom de voz que se esperaria de um brutamontes brigando em um bar, ao que uma formiga continuou com: “Volte aqui com minha picanha!”. Uma miríade de gritos semelhantes continuaram, enquanto seus produtores avançavam em direção àquela grande fonte de alimento. O problema para eles era o fato desta fonte, agora, ser móvel e questioná-los: “O que vocês querem de mim?”, mas alguns besouros já estavam com a resposta na língua: “Devorá-lo, oras. Agora pare de correr e me dê essa carne deliciosa.” Porém, o general de brigada não recebera sua patente de presente, e resolveu mostrar a seus predadores quem deveria mandar naquela situação. Seus pés pararam e juntaram-se nos calcanhares, seu tronco endireitou-se, seus músculos enrijeceram-se, seu peito inflou-se, seu braço esticou-se perpendicular a o corpo, dando a mesma ordem que sua garaganta produziu: “Parem!”, e eles pararam. “O que, por Deus, pensam que estão fazendo, seus vermes?”, ele continuou, “pensam que podem deliciar-se sobre o corpo vivo de um humano? E não só um humano qualquer, de um general de brigada? Não reconhecem a superioridade quando ela está em sua frente? Seus vermes imundos, merecem o pior dos castigos! Retirem-se do meu campo de batalha, vermes!”

“Porque ele continua repetindo que somos vermes? Isso não é nenhuma novidade”, uma mosca comentou com outra, a qual respondeu: “Ele bem que poderia calar a boca e ficar quietinho como os outros cadáveres”. Uma terceira mosca ouviu essa conversa e gritou para a grande refeição que continuava com seu discurso: “Porque você não fecha sua boca e permanece deitado como os outros?”, causando uma comoção geral na diminuta platéia. O general de brigada continuou argumentando, sempre invocando sua patente e a condição vérmica dos ouvintes, fazendo um besouro erguer a voz: “Pouco nos importamos com sua posição social! Não percebe o que está causando aqui? Seu egoísmo não apenas está deixando centenas à beira da inanição, como está destruindo famílias!”, ele apontou para uma mosca que, em lágrimas, protegia suas pequeninas larvas com seus braços, tentando acalmar seus gritos de fome com palavras de esperança. “Não vê?!”, ele repetiu, agora emocionado. “Olhem, eu compreendo que sua situação está complicada, mas não podem se alimentar de um ser vivo, é repulsivo. Especialmente um de tão alto escalão social. Desculpem-me, mas terão que procurar por um defunto para conseguir o que estão procurando.”, disse o general de brigada, recebendo como resposta: “Mas você é um defunto! Tomou um tiro na cabeça! Eu vi com meus próprios olhos! Não há ser vivente que sobreviva a isso!”, “Certamente não sou! Pareço muito vivo, não?”, contra golpeou o nosso general, dando início a uma reunião de cúpula entre os famintos invertebrados:

“É verdade que está falando”, “Mas há menos de quinze minutos estava deitado e imóvel”, “Vejam como agora está de pé”, “E argumentando!”, “Bobagem, já vi esse truque antes em um circo na Polônia”, “Olhem, todos sentimos como sua carne já estava fria”, “Sim, mas isso era antes”, “Uma bala lhe atravessou a cabeça! Não deveríamos estar discutindo isso! Está morto e ponto!”, “Talvez seja uma reencarnação”, “Talvez ele seja o Messias”, “O Salvador!”, “Meu Deus, acho que estamos presenciando um milagre!”, “Sim, um milagre!”, “A questão não é essa, senhores”, “Está me dizendo que não acredita em reencarnação?”, “Isso pouco importa, a questão é que estamos todos famintos, e nossa refeição acabou de levantar e está tentando se auto afirmar com sua patente de general”, “E o que faremos quanto a isso?”, “Precisamos descobrir se está vivo ou não”, “Do que importa saber disso? Eu digo que devemos atacá-lo logo e acabar com essa história. Se ele está morto, pronto, se não, nós o faremos”, “Calma lá, nos alimentamos dos mortos, não os produzimos”, “Alguém aqui por acaso estava perto do coração?”, “Eu, aqui!”, “Muito bem, filho, o que pode nos dizer sobre o batimento?”, “Não havia nenhum”, “Bom, está decidido, está morto”, “Mas isso era antes, agora o maldito fala e pensa”, “Vamos então descobrir se o coração bate agora”, “Todos apóiam?”. Um sim percorreu a boca da maioria.

Um besouro negro aproximou-se do general de brigada e começou: “Escute, senhor, compreendemos o quão complicada e incomum é a presente situação, portanto pedimos apenas um favor: veja  se seu coração ainda bate”. O general de brigada pôs a mão sobre o peito e não sentiu nada. “Está parado”, disse ele. “Então é um cadáver! O jantar está servido!”, gritou o besouro. “Esperem, não podem fazer isso com meu corpo”, argumentou o defunto, “apesar de meu coração não mais bater, eu ainda pareço muito vivo, não concordam? Logo, o corpo é meu, e não permito que o façam.”, “Desde quando um defunto tem direito sobre o próprio corpo?”, perguntou uma mosca, e a horda de comensais pôs-se a marchar para o grande pedaço de carne à sua frente.

O corpo antes pertencente ao general de brigada Renaud Ventouse sentiu suas forças esvaindo, sua visão embaçando. Caiu sobre os joelhos, estava fraco. Quando o diminuto exército finalmente alcançou seu objetivo, o corpo já estava novamente deitado, frio, imóvel. Aos seus pés, outros pés pousavam, apoiando um corpo mortificado escondido sob uma manta negra que lhe deixava apenas as mãos e o rosto de fora. “Ora, ora, se não é a Morte”, veio o besouro negro puxando papo com a própria. “Sim, se não sou eu mesmo. Desculpem-me a demora, senhores, com toda essa história de guerra, tenho estado atolada de trabalho, e, aproveitando meus momentos de distração,  um ou outro tem conseguido escapar”. “Que bom que chegou a tempo”, respondeu o besouro, “ninguém mais estava aguentando esse palhaço.”, “Você sabe como são esses militares, todos arrogantes e prepotentes.”, disse a Morte, e continuou: “Agora vá lá antes que não lhe sobre nenhum pedaço.”, mas o besouro, curioso, perguntou: “Mas, se me permite uma questão, senhora, existe reencarnação?”, sendo a resposta dada apenas um sorrisinho e um até logo. E, tão rápido quanto chegou, a Morte esvaiu-se no ar para cumprir seu triste porém necessário papel em algum outro canto do mundo.

Uma resposta

  1. Cara, achei bem divertido! Essa conversa entre os insetos e o general…hahaha, engraçado!

    Parabéns, mais uma vez!

    PS: A morte foi enigmática no final…

    agosto 31, 2011 às 10:57 am

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