Miguel e Ana, uma história de amor
Entediado, de fronte da tela sempre brilhante do computador, resolvi, inspirado pelos Imortais da literatura, pelos mestres da palavra escrita, pôr minhas faculdades para trabalhar num regime semi-escravo até produzir algo digno à apreciação na forma de conto melodramático para publicar no meu blog. O enredo era simples: Um jovem conhece, por acaso, uma jovem em um bar e tornam-se amigos; a narrativa passeia em alta velocidade por sua amizade, freiando quando os dois se apaixonam. Porém, a garota vem de família tradicional, que não aceita que sua filha se envolva com alguém que não siga sua religião, e o empasse entre os dois agrava-se. Nisso, surge outra paixão para o jovem na forma de uma curvilínea e descontraída colega de turma, a qual sofre de amores por outro rapaz, seu ex. A partir disso, o grande conflito está estabelecido. Após algumas peripécias que eu confiei ao acaso criar em minha mente, o jovem ensina à jovem uma nova forma de viver, e os dois conseguem ficar juntos com a aprovação da família, enquanto a outra paixão é esquecida nos braços do outro rapaz. Simples, bobo e repleto de frases de efeito: tudo que uma audiência poderia procurar.
Coloquei-me a trabalhar, e já na página 5, Miguel, o protagonista, adentra no Bar Batana, onde pede fritas e um refresco. Ele espera pela chegada dos amigos, que estão atrasados, quando nota que Ana, a fatídica garota, está na mesa ao seu lado, lendo o mesmo livro que ele. Passamos, então, para as páginas 6 a 10, onde os dois tem uma daquelas conversas tão perfeitas que só encontramos na arte, até que os amigos de Miguel chegam, e ela logo vai embora para visitar uma tia doente. Até agora, tudo bem. Partimos então para a parte acelerada da narrativa, parando quando os dois estão no mirante, observando a cidade alaranjada pelo sol poente, as luzes acendendo uma a uma, à medida que a escuridão da noite começa a encobrir a vista. Os dois olham-se estáticos por minutos, seus rostos se aproximando, as mãos tocam (sua pele é tão macia) e, finalmente, os lábios são empurrados uma para o outro numa declaração de mais puro amor.
No próximo dia, ela o convida para um jantar, o qual, para sua surpresa, será acompanhado dos pais da garota. Pena que ele só descobre isso quando já está sentado à mesa. Pobre, pobre rapaz. De qualquer forma, não quero estragar as surpresas, mas a conversa entre os quatro não é nem um pouco amigável, cheias de lembranças da adolescência da garota, e de como a repressão dos pais marcou-a psicologicamente. Afinal, ela foge do local chorando, e ele vai atrás, deixando os pais para lidar com a conta quilométrica.
Estamos aqui na página 20, e é nesse ponto que as coisas começaram a complicar, não apenas na vida dos dois personagens, mas na narrativa em si. Para minha surpresa, depois que Miguel encontra Ana chorando em sua casa e a consola, ela declara o quanto odeia seus pais, acende um cigarro de maconha e apresenta doses de vodka, que os dois dividem romanticamente, antes de engajarem em uma longa noite de amor. Não era minha intenção colocar o evento na narrativa, mas esta era mais poderosa que meus poderes de autor.
Perdi um certo tempo tentando, inutilmente, consertar o que os dois tinham feito, mas, quando vi, a narrativa já tinha avançado algumas páginas quando eu não estava olhando. Agora o casal repetia as doses de vodka periodicamente. A família de Ana contratara o padre da paróquia para atormentar a vida dos dois. Miguel estava apaixonado por Helena, a sua colega de turma (que foi descrita de forma extremamente sensual na página 32, quando traiu Ana com ela). E, no presente momento, Miguel e Ana estão em um café, se recuperando da ressaca da noite seguinte, quando entra pela porta Helena, que se dirige à mesa do casal. A tensão está no ar, e o próximo passo foi imprevisível: Miguel descobre que Ana é a ex de Helena, por quem ela ainda guarda uma paixão, e Ana, por sua vez, sente saudades de Helena. Miguel está sobrando nessa história e, deseperado, joga-se nos braços de Helena, que retribui o ato em um longo e úmido beijo. Ana fica fula da vida com isso e joga-se, por sua vez, em cima de Helena com os punhos fechados e cheios de ódio. Miguel tenta separá-las quando entram, no mesmo café, os pais de Ana. Xingamentos são atirados para todos os lados, e todos são expulsos do café.
Abalados pela cena, os pais de Ana engajam numa briga homérica de dias que culmina no divórcio; Miguel revela que traiu Ana e que vai largá-la por Helena, porém Ana diz que já fez planos de largá-lo por Helena primeiro. Os dois, então, tornam-se inimigos disputando pelo coração de Helena, a qual não faz nada além de aproveitar os dois (às vezes ao mesmo tempo). As coisas realmente fugiram de controle, e eu já não conseguia consertar nada, tudo o que podia fazer era observar como a trama se desenrolaria.
Pois bem, no final, a mãe de Ana entra em uma depressão profunda após o divórcio e comete suicídio depois de dois meses; o pai de Ana muda-se de cidade por meses, e ao retornar, virou um hippie com constantes flashbacks de Woodstock, assumindo sua homossexualidade numa relação com o padre da paróquia. Após descobrir o suicídio de sua ex-mulher, tem um colapso nervoso e passa a crer que se chama Jatobá Unguento e recebe espíritos todas as quartas-feiras, das 18 às 22 horas. Quanto ao triângulo amoroso mote da história, ainda não chegaram a uma solução. Periodicamente beltrano fica com ciclano, ciclano trai beltrano com fulano, os três brigam, fulano fica com beltrano e assim até o infinito.
Perdi o controle de tal forma sobre ela que nem mesmo consigo colocar um ponto final. O fim dessa narrativa, assim como na vida, é incerto, pois ela continua seguindo pelos caminhos menos esperados, sob o controle apenas dos que estão nela retratados, ninguém mais. Portanto, não tenho nada para publicar. Peço sinceras desculpas aos leitores pelo incoveniente.
Hey, Ivan, curti seu post! Foi bem escrito e a história ficou bem divertida! O resto te falei por tel hahaha
bjs
setembro 16, 2011 às 10:49 pm
Perfeito…sério…
setembro 26, 2011 às 1:33 pm
Que bom que curtiu! Obrigado pelo comentário, comentem sempre.
outubro 13, 2011 às 1:50 pm