"Le secret pour être ennuyeux, c'est de tout dire" – Voltaire.

Bactérias: A Beleza do Simples

Bactérias, geralmente vistas como os seres mais basais de todos, guardam maravilhas mais interessantes do que pode imaginar o simples homem. Pequenas, simples, formadas de apenas uma célula, elas inspiram pouco interesse popular, diferente da intricácia e complexidade dos mamíferos. Mas vistas sob o ângulo correto, deitariam por terra qualquer beleza de um organismo pluricelular.

A começar pelo simples fato de terem sido as primeiras formas de vida existentes no planeta e continuarem vivas até hoje, apesar de todos os ambientes do globo já terem sofrido mudanças extremamente drásticas. Muito mais do que isso, são a forma de vida mais abundante em todo o mundo. Elas possuem uma capacidade de adaptação e transformação gênica impressionante, podendo adaptar-se rapidamente a novos ambientes, adquirir resistência a antibióticos e muito mais para continuarem sobrevivendo. Podem fazer isso pelo fato de conseguirem incorporar segmentos de DNA exógeno que encontram no meio ou que recebem por vírus ou outras bactérias, por processos chamados transformação, transdução e conjugação, repectivamente. Graças a essa capacidade, bactérias patogênicas conseguem torrar a paciência de médicos e profissionais da saúde, especialmente em hospitais, mostrando-se como um grande oponente à saúde humana.

O ponto que quero chegar encontra-se em uma questão nunca plenamente respondida, apesar de várias crenças, religiões ou escolas filosóficas terem tentado encontrar uma resposta: por que morremos? Em geral essas respostas enobrecem a condição humana, e mostram a morte como algo intrínseco e inseparável à vida. Mas o impressionante é que, tomando a questão além da mente e da crença, indo até o primórdio biológico, a resposta é muito mais sombria do que nosso ego nos permite aceitar, e a morte não está necessariamente contida na idéia da vida. Tudo isso pode ser sucintamente explicado ao se olhar para as bactérias.

Em todos os seres pluricelulares e complexos que podemos pensar do topo de nossas mentes em 5 segundos, existe, dentro do DNA de cada célula o fator da mortalidade. A resposta da grande pergunta está dentro de nós mesmos.  Todos eles (e nós também) são mortais, e um dia conhecerão seu fim, sendo as formas disso acontecer várias. Porém, o interessante é que eles precisam, um dia, morrer. Mesmo esquivando-se de todas as formas de bater as botas (falta de alimento, predação, doenças etc.), ainda assim um processo que desde o momento que passaram a existir vem atuando vai encontrá-los e levá-los a seu destino. Esse processo é a senescência, a morte por velhice, para os não familiarizados com o termo. Pense: temos um limite de tempo para passarmos neste mundo, e quando ele chega, não há nada mais. A única coisa que podemos fazer com ele é encurtá-lo. E é aí que as bactérias entram com o tour de force: elas não possuem esse limite. Elas são, potencialmente, imortais.

Se retirarmos uma célula de algum tecido humano (uma célula que não tenha se diferenciado tanto a ponto de não se dividir mais) e colocarmos ela em cultura sempre com todas as condições que ela necessita para crescer, ela vai sobreviver e se dividir, formando o que chamaríamos de uma “colônia”. As primeiras divisões são rápidas e numerosas, porém, a partir de um certo número, esse ritmo decai exponencialmente, até que atinge um número muito baixo e termina por cessar completamente. As células que restaram vão, pouco tempo após as últimas divisões, entrar em processo de apoptose (i.e. uma morte celular programada), um suicídio celular, digamos assim, e morrer. Ou seja, mesmo com todas as condições ideais presentes e sendo mantidas, as células humanas morrem. Agora, se fizermos a mesma experiência com uma bactéria, ela não vai morrer nunca, dividindo-se ad infinitum. Elas não contém um programa, como as células humanas o tem, para cometerem suicídio após um determinado tempo, ou número de divisões. Ressaltando novamente, bactérias são, potencialmente, imortais. Digo potencialmente, pois essas condições ideais são quase impossíveis de serem mantidas na natureza, pois o ambiente sempre será dinâmico e alterações ocorrerão, bem como competição entre as “filhas” dessa primeira bactéria.

Mas porque elas conseguem sobreviver eternamente enquanto nós não? A resposta para isso (ou pelo menos parte dela) está contida no modo como elas e nós nos reproduzimos. E reprodução é, basicamente, a missão de todo ser vivo neste planetinha. Nós, bem como todos os outros seres multicelulares presentes no globo, temos, basicamente, dois tipos de células em nosso corpo: as germinativas (responsáveis por todo o processo de reprodução sexuada, ou seja, são os espermatozóides nos machos e os óvulos nas fêmeas) e as somáticas (todo o resto, responsáveis pela composição, funiconamento e regulação do corpo). Com essa divisão, houve também uma divisão de tarefas: as células germinativas carregam sobre si o grande fardo de passar os genes do indivíduo para a próxima geração, pois são as únicas que dão origem a um novo ser, enquanto que para as células somáticas o único papel que lhes sobrou foi o de protegê-las. Dessa forma, pode ser triste para alguns pensar, mas as únicas células no nosso corpo que, de fato, nos são importantes, são espermatozóides e óvulos. O resto do corpo é descartável, uma vez que as células germinativas foram protegidas e contribuíram satisfatóriamente para a próxima geração. E é por isso que, resumidamente, morremos.

Mas as bactérias são diferentes. Elas não apresentam essa divisão de tarefas e de células, pois, diferente de nós, elas são compostas por apenas uma célula. Ou seja, elas são, em si, somáticas e germinativas. Não é à toa que sua reprodução é assexuada, isso é, ocorre por uma simples duplicação de todo o material dentro da célula e posterior divisão em duas células idênticas em tudo. Portanto, quando a célula realiza seu papel “germinativo”, as novas células “somáticas” estão prontas para passar seu DNA para a próxima geração. Não faria sentido para uma bactéria morrer após um certo tempo determinado, pois sua vida começa novamente após sua reprodução, e o papel “germinativo” deve ser cumprido de novo, e de novo e de novo, até o infinito.

Esse mesmo fenômeno visto em bactérias pode ser observado, também, em seres pluricelulares, na forma do câncer. Células cancerígenas não passam de células somáticas que perderam o controle sobre sua multiplicação e, impressionantemente, sobre seu suicídio celular. Elas, devido a muitas possíveis razões, retornaram ao estado de suas ancestrais bactérias, adquirindo o poder da imortalidade. Infelizmente, células imortais se multiplicando dentro de um corpo mortal não resulta em algo bom.

Mas, voltando às bactérias, elas nos mostram quão bela e fascinante é a natureza. Apesar de determos nossa atenção em animais magníficos como um leão, ou em uma planta com uma flor que inspira poemas, como o maracujá, ou lírios, há sempre algo mais.  Apesar de toda a intricácia de cores que um ser multicelular pode produzir, até no mais simples, no que normalmente não tomaria nossa atenção, há uma beleza escondida. E essa beleza é incomparável.

Para mais informações sobre o tema, recomendo o livro Sexo e as origens da Morte, de William R. Clark.

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