"Le secret pour être ennuyeux, c'est de tout dire" – Voltaire.

Com fritas, por favor!

No dia 7 de setembro de 97, Henrique Solano apagava seu cigarro no cinzeiro de uma bodega do Rio. Tal ato, mal sabia ele, seria o necessário para despertar uma nova revolução na história da humanidade comparável apenas à Queda da Bastilha, não tivesse ele o feito com tanto desprezo. Algumas mesas distante, Marcel Oliva escrevia uma dolorosa e penetrante declaração de amor para sua paixão platônica de verão: Vera, a caminhoneira mais bonita de toda a BR 116, que o vencera numa queda de braço no balcão do Frango Assado. Fora amor à primeira vista, quando, com o rádio e a ulna quase quebrados, ele viu, ao som das gargalhadas alheias, aqueles robustos lábios da semi-deusa engolirem às goladas uma garrafa quase inteira de cerveja. Após cinco meses perseguindo-a pelas estradas, finalmente tomara coragem para declarar-se, mas como era um covarde irrecuperável, resolveu fazê-lo por escrito. Assim começava a carta: “Agora você cale a boca e me escute…” Ao terminar a declaração, ele correria até o carro e a encontraria exatamente no kilômetro 42 da bendita estrada, segundo as suas contas e entregaria-a em mãos na primeira parada que ela fizesse. Três meses mais tarde, ele estará novamente na mesma mesa, bebendo e  chorando com uma ordem de restrição no bolso.

No balcão, Geraldo Sardova -o Geraldão- pede uma média bem escura com um pão na chapa, para saborear melhor o jornal. Quando abre o caderno de economia, olha a hora no relógio e exclama: “Meu deus, estou atrasado para o trabalho!”, mas depois de pensar um pouco, deu de ombros e voltou a ler as notícias: “Eu perdi ele ontem, mesmo.” Sua linha de pensamento continuaria por sinuosos meandros sobre a atual crise financeira do setor de envelopes sem cola que lhe afetara tão fortemente e, inspirado pelo modo do garçom atender mais de um cliente por vez (e conseguir carregar 5 pratos quentes, 2 copos de chopp, duas contas e 3 porções de bolinho de bacalhau sem derrubar um átomo sequer no chão), resolveria a situação, tornando-se o mais novo bem sucedido empresário brasileiro. Como podemos ver hoje em dia, isso não aconteceu, pois essa referida linha de pensamento foi bruscamente interrompida pelo estardalhaço que o bar inteiro fez no momento que o Fluminense fez um 2×1 em cima do Cruzeiro.

Foi uma barulheira geral. Todos comemoravam numa alegria somente vista quando o Brasil ganhou a Copa em 94. Estranhos se abraçavam, alguns derrubavam suas bebidas ao levantar muito rápido para erguer os braços aos ares e comemorar. Os gritos podiam ser ouvidos do outro quarteirão, pois além desse ponto já eram abafados pelos rojões soltados das janelas do prédio de apartamentos número 1924. Porém, em meio a essa festa, a esse entusiasmado júbilo, Otto Matraquino comemorava, pulava e abraçava estranhos, pois acabara de descobrir que seu nome era um palíndromo.

Quando a calma retornou aos abalados corações e as atenções voltaram-se aos 15 minutos finais da partida ou às conversas no âmbito das mesas, Júlio Arantes desabotoava suas calças para aguentar mais uma rodada de torresmo e uma boa dose de Poesia, sua cachaça predileta. Seu comparsa, Hector Beato (esse, sim, poeta) palitava os dentes embaralhando as cartas para mais uma rodada. Em sua mente, porém, pensava, à guisa do Grande Poetinha, em um ou dois versos bem compostos para Maria Petrarca, a morena que agora passava rebolando suas ancas pelo calçadão em sua saia levinha, arrastando os pés naquelas rasteirinhas douradas e sentava com as pernas cruzadas no banquinho na orla, em frente ao bar. Pensava ela porque aquele poeta bonitão que ela vê todo dia naquela mesa não vem ali mexer com ela, dizer quatro ou cinco palavrinhas em seu ouvido para ela recusar, ele insistir e, depois de uma meia hora naquele joguinho ela ceder, fingindo que não está cedendo. Mal sabiam eles que isso iria acontecer dali três dias e se transformaria numa bela história de amor, que terminaria em adultério, divórcio, vingança e cadeia para algum dos dois. Qual deles, eu ainda não sei, mas, por enquanto, Hector Beato só virou para o lado e pediu um filé de alcatra ao ponto. Com fritas, por favor!

Uma resposta

  1. Bem caótico isso! hahaha! muito bom, cara!

    dezembro 7, 2011 às 4:58 pm

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.