Ho! Ho! Ho!
Chega o final de dezembro e voltamos àquela mesma rotina de todo ano: desenterrar os enfeites natalinos das caixas, montar a árvore, batalhar contra os nós das luzes piscantes e esperar em filas e mais filas para ver o 13º esvair-se como se tentássemos segurar água com as mãos. Temos que correr atrás do peru para saciar a família inteira, os quitutes típicos e arrumar a casa. De vez em quando andamos calmamente com o caçula nos ombros para ver as luzes na Paulista e somos inundados pela nostalgia dos tempos em que o Papai Noel era mais real do que o final do calendário Maia ou o aumento do salário da Câmara, nostalgia essa que os mais lúdicos rotulam de “espírito natalino”.
Tudo isso é muito bom e agradável até que, chegando mais perto da data, conversando com uns amigos em algum bar da Vila Madalena, nos dividimos em dois grupos muito mais conflitantes do que os típicos “de direita” e “de esquerda”, muito mais sérios do que “corinthianos” e “palmeirenses”, muito mais violentos do que “mal passado” ou “no ponto”: são os grupos natalinos. De um lado ficam os do “dia 24″, do outro, os do “dia 25″.
O pessoal do “dia 24″, como o nome já indica, comemora o Natal na noite do dia 24: vira a noite comemorando, trocando e abrindo presentes, e, como já é tarde da noite, ninguém se segura na bebida. Para as crianças desse grupo, o Papai Noel é conhecido por atacar exatamente à meia noite, e elas se sentem privilegiadas por serem, aparentemente, as primeira beneficiadas pelo Bom Velhinho. O pessoal do “dia 25″ já é mais conservador, se inspirando nos seriados norte-americanos dos anos 60: dormem cedo no dia 24 depois de uma ceia mais ou menos, as crianças acordam por volta das 6 da matina (para a desgraça dos pais) para descobrir que foram visitadas pelo mesmo velhinho enquanto dormiam. A grande ceia que o pessoal do “dia 24″ faz no dia 24 é feita no dia 25 por esse grupo rival, mas como é feita cedo, todos pegam leve na bebida.
Para o pessoal do “dia 24″, o dia 25 nada mais é do que dia de curtir os presentes e ficar de molho em casa, petiscando nas sobras da ceia. Já para o pessoal do “dia 25″, o dia 24 é sem graça, cotidiano, com a única diferença de comerem peru e tomarem vinho com toquinhas de Papai Noel.
Eu, particularmente, me alistei desde pequeno nas fileiras do “dia 24″ (mais por influência familiar do que por opção), e me senti identificado com esse estilo de vida. Não só é uma grande festa familiar que vira a noite, mas o Papai Noel se torna uma figura muito mais misteriosa e poderosa. Afinal, quando bate a meia noite, a criança se vira de costas para a árvore por um minuto e, logo depois, encontra-a recheada de presentes. Só um mágico dos bons consegue fazer uma mágica dessas! E sem deixar vestígios! Enquanto isso, o Papai Noel do “dia 25″ é um velhinho sorrateiro que entra na surdina, deixa os presentes e vai embora, tomando o tempo que for. Imagina só que horror? Você nem percebeu ele entrando na sua casa! E se deixar presentes não foi a única coisa que ele fez? Eu não conseguiria dormir tranquilamente até checar todas as gavetas, todos os armários e contar cada moeda no meu cofre!
Pois é, os dois grupos se atritam de forma agressiva quando, no dia 24 ou no dia 25 perguntam o quais são os planos para a noite. Cada um fala com orgulho o que vai fazer, infla o peito e até desdobraria uma bandeira se tivesse uma, enquanto observa o olhar de desprezo do rival. Porém, os dois pensam a mesma coisa um do outro: que babaca. Se não fosse o garçom chegando com a rodada por conta da casa para comemorar o Natal, o confronto físico seria inevitável.
Enfim, todos vão para a casa ainda no clima de tensão, cada um comemorar o Natal da sua devida maneira, os do “dia 24″ no dia 24 e os do “dia 25″ no dia 25. Passadas as festividades, o grupo se reúne novamente no mesmo bar da Vila Madalena e comenta sobre a reação das crianças ao descobrirem os presentes: “O Júnior vibrou no carrinho de controle remoto!” “E a Juju com a nova Barbie?”. E assim todos caem na gargalhada até que o assunto cai no Réveillon. O pessoal “da praia” saca as armas, enquanto que o pessoal “do interior” já parte pra briga. É uma maravilha como essa época nos une!
hahahaha somos rivais! achei divertido, bjos
dezembro 25, 2011 às 4:55 pm
Muito bom mesmo! Pior que isso acontece, cara, e muito!
Bom fim de ano e parabéns pelos textos!
dezembro 27, 2011 às 10:25 am